Todo ano, no dia 3 de julho, aquele filme passa inteirinho na minha cabeça, e ele começa num dia de outubro de 1996, quando me levantei da cama de solteiro daquele apartamento da Gal. Jardim e disse àquele homem que eu ainda nem amava: dessa vez foi, tenho certeza que engravidei. Foram algumas semanas até que ele visse o plástico branco do exame de farmácia tremendo na minha mão e constatasse que sim, nossas tentativas não falharam, esperávamos um filho. Que eu já sabia ser um menino e cujo nome eu já havia escolhido. O filme passa por lindas quarenta semanas de transformações absurdas no meu corpo, na minha cabeça e na minha vida, pra sempre. O filme mostra a minha cara de decepção ao ouvir do médico que minha barriga estava mexendo só por causa dos gases, que ainda era cedo pra sentir o bebê, e depois um close do barrigão enorme pro meu tamanho se convulsionando pelo moleque que se remexia, enfiava os pés entre duas das minhas costelas, virava de cabeça pra baixo se preparando perfeitamente pro grande dia. O filme tem o humor previsível da correria da madrugada em que a bolsa estourou, o parto fácil, o bebê saudável. A casa nova, no mesmo apartamento da Gal. Jardim, com um marido novo e um filho novo no colo, um medo que eu nem tinha tempo de sentir. O filme tem cenas lindas desse filho mudando dia a dia, aprendendo coisas com impressionante rapidez, a gente se vendo nos pés, nos olhos, no sorriso, no jeito dele de falar. A cada ano o filme ganha novos lances, como o ano inteiro em que o menino, já crescidinho, ficou sem andar, o dia em que ficamos sem casa e a impressionante capacidade de adaptação do moleque. É um filme lindo, com muitas e muitas cenas inesquecíveis. E ele passa agora de novo, aliás já faz uns dias em que ele está passando, e a cada ano eu percebo que é um filme feliz, apesar de tantas cenas dolorosas. Hoje faz doze anos daquela cena cômica do Gustavo correndo desesperado pelo quarto sem saber o que fazer com aquela menina de 23 anos que garantira que a hora chegou, que o filho dele ia nascer e nada do que ele aprendeu naquelas semanas fazia o menor sentido. O dia em que matei a vontade de conhecer a voz do meu filho, em que um novo filme começava e eu tava cheia de coragem pra enfrentá-lo. Cheia de vontade e tesão pela maternidade, tesão esse que só cresce a cada dia, a cada dificuldade e a cada alegria que esse papel vitalício me proporciona.
Tenho pensado muito em Zé Vasconcellos. O dono da comédia, o primeiro Stand Uper brasileiro, o frustradíssimo idealizador da Vasconcelândia, lembra? Ele já foi nosso convidado no Nunca se Sábado. Eu lembro do desespero nos olhos de todos ao ver aquele velhinho alquebrado e todo devagar chegando atrasado para a peça depois de ter furado conosco no ensaio. Fudeu, pensamos. Fudeufudeufudeufudeu! Alguns comediantes big fuck que estavam na platéia foram acionados pra uma eventualidade. Até que esse homem entrou no palco. O Teatro Folha tava, pra variar, lotado, muita moçada na platéia. O Zé se iluminou todinho, uma loucura, aquilo. Foram as duas melhores horas que aquele palco já viu. Ele virou um moleque, eu não vou tentar escrever sobre aquilo, eu não saberia nem por onde começar. Ele tá velhinho, doente. Um dia ele vai pedir penico. Alguém tem que fazer um documentário com ele, que tá lúcido (ou tava, até dois anos atrás) e tem um verdadeiro museu na casa dele que eu tive a sorte de conhecer quando fui buscá-lo prum outro trabalho que tivemos o puta orgulho de fazer com uma participação dele. Pena que esse filme não foi finalizado, se bem que ele não usou metade da luz que guarda pra ocasiões especiais, mas de qualquer maneira é uma imagem bem interessante do grande Zé. Grande Zé.
Nunca liguei pra datas, nunca me preocupei com elas e casei com um cara que além de não se preocupar sequer se lembra delas. Familiazinha esquisita, a que eu tinha. Porém, o dia do aniversário do Pedro é sempre um acontecimento, porque pra ele é importante e o que é importante pra ele é importante pra gente. Eu tava chateada pela minha dureza tártara e não sabia o que eu daria de presente pro guri, que vai fazer doze anos (ai!) nessa sexta. Já tinha conversado com ele a respeito e ele tava tranquilo, já ia mesmo ganhar do pai e da Marisa a guitarrinha do Guitar Hero, aquele joguinho do Playstation, que ele tanto queria. "Tudo bem, mãe, depois cê me dá aquele poster que a gente viu na galeria, mas não precisa ser agora." Porra, às vezes filho legal fode com a gente. Enfim, vamo que vamo, a vida é assim mesmo. Só que essa vida que é assim mesmo às vezes faz uns carinhos na gente, e sem entrar em muitos detalhes pra não chatear ninguém com minhas digressões, acabou que Pedrão ganhou uma guitarra maneira, que o Robério, encantado com o interesse musical do Pedrão, vendeu por 1/4 do preço, que era a grana que eu tinha na carteira, porque, burra, esqueci de deixar em casa. Meu loirão voltou pra casa com uma Telecaster linda embaixo do braço, um sorriso enorme pregado no rosto e dizendo sem parar que ele sempre imaginou que ganharia a guitarra nova dele assim, inesperadamente. "Pô, mãe, cê tem noção que eu tô com a guitarra que era do baixistadocamisadevênus? Mãe, ele foi com a minha cara!" Foi, filho, ele foi com a sua cara. Eu diria que é porque você é um cara especial, que você é legal, que você é um puta dum anjo iluminado e talentoso e interessado e a fins pra caralho de saber mais e mais e mais. Que o Robério, que é um cara legal pra caralho, sacou a tua vontade e só te deu mais uma motivada, já que o mundo vai fazer o trabalho inverso por muitas e muitas vezes. E algo nos diz que nada vai tirar você desse caminho que você escolheu. Daqui, filho amado, só fico te desejando sorte, força e bons amigos. Feliz Aniversário.
Poizé, liberdade é um treco complicado. É corda pra se enforcar, mas eu gosto. Tô adorando não dever satisfação da minha vida a ninguém. Se eu quiser descer as cataratas do Niágara num barril, eu posso. Eu e o Pica Pau. Eu e Pica Pau temos em comum uma irresponsabilidade demente, mas a minha é moderada, embora não menos demente.
A minha irresponsabilidade tem me feito sair de casa num estado um pouco alterado de consciência. E por isso eu falo sozinha, dou umas dançadinhas imbecis na rua ouvindo Smiths, esqueço coisas como guarda chuvas e livros por aí, correspondo a cantadas cretinas e coleciono números de telefone para os quais eu nunca ligo. Minha irresponsabilidade me faz atrasar dez minutos aqui, quinze acolá. Eu tenho andado com um sorriso bobo na cara e desculpando a todos por tudo. Eu não tenho mais sentido raiva, nem mágoa, não me sinto injustiçada nem injustiçando, não me irrito mais com tanta facilidade - e olha que tem gente tentando de todas as maneiras - eu tô em paz. As contas continuam a passar por debaixo da porta, minha dívida no banco só aumenta, mas eu tô dormindo bem, amanhã eu resolvo isso. A minha irresponsabilidade tem me proporcionado excelentes noites de sono. Andam me perguntando se eu estou apaixonada, mas eu não tô. Aliás, nem perto disso, faz muito tempo que ninguém bota esse coraçãozinho pra bater com um pouco mais de ginga. Minhas siriricas são todas reprises, puta tédio. Mas a irresponsabilidade tá aí pra agitar um pouco as coisas mesmo, então tá tudo bem e eu continuo com esse ar de apaixonada sem outra paixão que não a pela vida boa que eu tô levando. E por mais que me digam que "freedom is never free", e por mais que eu acredite nisso, até agora não paguei nada...
O Roberto Souzaé um fotógrafo que eu conheci pela Fernanda Gama que o conheceu pela Mari Leme, ou algo assim. Ele é fantástico e faz fotos de cena incríveis, fez as fotos mais legals que o "Mulheres" tem. Tô apaixonada pelo trampo do cara. O blog dele tá linkado aí ao lado. Divirtam-se.
O que mais eu poderia fazer a não ser abrir a porta praquela mulher aflita e ouvir todos os absurdos que saíam da sua boca com meus ouvidos mais atentos? Eu já estive em seu lugar, eu entendia o seu sofrimento e sabia não havia nada que eu pudesse fazer, dizer ou mostrar que pudesse lhe fazer ver que não, eu não tinha mais vontade nenhuma de voltar praquela estória. Eu havia saído dela com um grande alívio e nada me faria voltar pra lá, muito menos amor de mentirinha. Quando enfim acalmei ou acho que acalmei pelo menos um pouco aquele coração, quando aquela mulher foi embora, fechei a porta e lembrei de todas aquelas coisas mortas e não senti a menor saudade delas.