Eu deixei muita coisa pra trás, muitas manias, mais de metade da minha agressividade, os comportamentos neurastênicos aprendidos na paz do sacrossanto lar onde cresci e outras buchas. Hoje não cedo mais tão facilmente às tentações de me fazer de vítima quando me dou mal - o que invariavelmente tem acontecido de uns meses pra cá. Me conscientizei profundamente de que ninguém vai me fazer mal se eu não deixar, e de que cheguei aqui nesse buraco em cima das minhas próprias perninhas torneadinhas (e eu ia perder uma oportunidade dessas de me promover?).
E quando achei que não cometeria aqueles velhos erros novamente, uma oportunidade de ouro aparece, e eu não sou de perder oportunidades - nem de usar um tal de critério, que ouvi dizer que é o maior legal.
Tá foda me ver andando pra trás. Ter que dispender uma energia hercúlea pra fazer o que antes era tão fácil quanto andar pra frente: andar pra frente. É horrível me pegar naqueles pensamentos mesquinhos e rancorosos, me perceber frustrada, remoer cenas e sentir o amargo na boca e o sangue nos óio de novo como se tudo tivesse acabado de acontecer. É horrível saber a verdade mas me sentir incapaz de realizá-la de fato, aqui dentro do meu serzinho.
Eu sei o que eu quero, fiz o que eu quis, e não me resta dúvidas de que fiz o melhor a se fazer - depois de ter deixado a merda acontecer. Pelo menos isso eu não perdi e com dor no coração ou não, faço o que deve ser feito, de um beijo a um tapa, doa a quem doer, foda-se o que eu tô sentindo ou o que a auto sabotagem, companheira antiga, me aconselha.
Mas as dores, ah, as dores! O medo, a revolta, a mágoa, o sentimento de injustiça socada goela abaixo me tiraram o sono, o tesão e o apetite muitas vezes. Me tiraram a calma e botaram tanta água nos meus olhos que eu não via o óbvio ululante, não me conformava com a falta que o câncer extirpado me fazia.
Mas parece que a água evaporou. Talvez pela secura do ar, talvez por uma nuvem (das secas) de bom senso que baixou por aqui, talvez pelas noites agradáveis que tenho tido, e com certeza pela companhia de amigos tão importantes, que podem me ver sem máscaras e mesmo assim me amar incondicionalmente. Amigos que me conhecem e seguram pontas, das pesadas. Amigo pra boteco serviço ruim/preço chique na Vila Madalena qualquer mané tem. Essas amizades podem durar 50 anos e o mané se orgulhar delas. Mas amigos como os que eu tenho, que viram o que viram, ouviram o que ouviram, tiveram coragem de dizer o que disseram e que me ligam, cuidam de mim, cozinham pra mim, me fazem cafuné, me dão colo e, em alguns casos, sexo de excelente qualidade, sorry, qualquer mané: você não tem.
Vejo o que aconteceu comigo se repetir com pessoas queridas. Me entristeço com elas, e tento fazer o que fizeram por mim. Peço encarecidamente que se lembrem da máxima "ninguém faz mal pra você se você não deixar". Cuido, ouço, mimo, bato e chacoalho. Arranco rancores com as minhas mãos. Ou pelo menos tento.
E espero, do fundo desse meu coraçãozinho vagabundo, que todos saiam dessa com uma agilidade maior que a minha, que andem pra frente, que afinal de contas, é tão fácil quanto andar pra frente.
Vamo que vamo, putada! Já viram que lindos dias temos tido?
Ouvi isso dia desses, de passagem pelo cume de uma montanha no Tibet: (mentira, foi o Renato que me mandou, mas tá valendo)
- Mestre, como faço para me tornar um sábio? - Fazendo boas escolhas. - Mas como fazer boas escolhas? - Experiência - disse o mestre - E como adquirir experiência, mestre? - Fazendo más escolhas.
Continuo pensando em você – o que é ridículo. Estes anos entre nós como um mar. E a dignidade que veio com o tempo impediria meu lápis sobre o papel. O som estava ligado; você pediu pelos Stones; conseguiu, conseguiu café fresco, conversa. As cortinas cerradas guardam uma noite selvagem. Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos. Não há razão para isto, nenhuma. Você diria que não posso ser o que não sou, mesmo que não possa estar onde estou. Onde isso nos leva? O que podemos fazer? O silêncio após Jagger foi como uma capa que eu teria jogado sobre você – havia apenas o vento, e o relógio batia enquanto você bebia, agarrando a caneca verde entre as mãos. Não olhe para cima assim de repente! Como é duro não olhar você. Chegamos ao ponto de não falar e não se preocupar, e aquilo foi quase feliz. Então, mais tarde, quando você deitou sobre o cotovelo no carpete não senti nada além de uma punhalada de dor me dizendo o que era, e não posso dizer para você, nem uma palavra.
Lembram dele? Do calendário (link) que fizemos pra dar uma força naquele momento blé do Marião? Poizé, ele ainda existe. E apenas dez deles foram impressos. E serão rifados. O objetivo mudou, já que o Marião, que descobrimos ser na verdade o Chuck Norris, está melhor do que nunca. As rifas vão dar uma força na produção da V Mostra do Cemitério de Automóveis. Cada rifa custa cincão, e você corre o risco de levar doze gostosas pra casa. E aí, que nomes vocês escolhem? Cinco pilinhas, putada. Vamo?
E ainda como se não bastasse, vai ter festa, no Rio Verde - puta espaço - com show do Saco de Ratos e da Fábrica de Animais e discotecagem da Chris e do Carcarah. E vocês aí reclamando de tédio...
Tanto tempo sem sair, curtindo uma tristeza de tamanho inexplicável, decidi que estava na hora de botar as manguinhas - e as perninhas - de fora.
A oportunidade perfeita pintou: show da Fábrica de Animais na galeria. E era perfeita mesmo, um monte de amigos naquele pico que tá cada vez mais agradável, com um puta som bacana e a cerveja geladinha num preço honestíssimo. Show delicioso, cerveja idem, pedi a segunda e ela escorregou que foi uma beleza. Eu também escorreguei: um sono avassalador tomou conta de mim, minhas pernas amoleceram e eu só me lembro do Basa me levando cuidadosamente pro sofazinho tchop tchura que me recebeu num abraço pra lá de aconchegante. Dormi feliz da vida.
Depois eu soube que meu corpinho inerte e indefeso estava sendo cobiçado por umas formas de vida alternativas que frequentam a noite. Nada demais, os caras tavam só tecendo uns comentários imbecis, mas alguém passou por alí, ouviu aquilo e tomou providências. Foi quando o Ayala chegou, o grande Ayala. Você não conhece o Ayala? Impossível explicar em 18.000 caracteres, que é o que o Uol me dá aqui nessa graminha. Porque eu poderia tentar definir o Ayala como um roadie. Mas ele é mais que isso. Ele é paraguayo, é do rock, o que explica muita coisa, mas "roadie paraguayo do rock" também é muito pouco prum homem como ele. Companheiro, amigo, solícito, com um humor ácido e uma personalidade doce, querido, querido, querido, o Ayala é uma unanimidade.
Soube que ele mandou os caras embora, um deles foi tropeçando escada abaixo e ainda tomou uma mochilada: "suma daqui". "Pô, mas a gente só tava olhando a mina!". E Paula Klaus retruca: "Então vai olhar umas minas acordadas lá embaixo". Os caras se picaram, Fernanda me acordou e me trouxe em casa, na porta, sã e salva.
É, eu não aproveitei a noite, poderia ter curtido mais e sinceramente não sei como duas cervejotas causaram tanto estrago. Mas fui cuidada, protegida e sei que o serei de novo e de novo se isso for necessário. Mas isso não deve acontecer, acho que já entendi que a partir de agora terei que parar na primeira cerveja, ou encher a cara de água. Ou, se eu quiser chutar o balde, que seja na deliciosa compahia dos queridos Basa, Klaus, Ayala, Fê e quem mais estiver a fins de me carregar até um sofazinho tchop tchura e velar meu sono bêbado.
E para quem não conhece o Ayala, uma foto antiga que pode explicar um pouco mais sobre meu ex futuro padrinho de casamento, e nesse tempo ele já era definido como o Lendário Ayala:
E uma foto recente, que mostra que o bicho tá muito bem conservado no álcool:
Olha, me falta muita coisa, mas o mais difícil eu tenho: amigos, excelentes amigos.
Pra mim é assim: isso aí que a maioria de vocês chama de deus eu chamo de truque sujo da mãe natureza, ou instinto de sobrevivência. A gente tem que acreditar em alguma coisa pra continuar nesse planetinha catinguento. E o truque sujo da mãe natureza nos segura por essas plagas com o que eu chamava de amendoizinhos, mas hoje, mais globalizada, chamo de MM's.
Funciona assim: você tá quase concluindo - ou já concluiu mas não consegue fazer nada a respeito - que viver aqui é mesmo uma puta duma roubada. Como não há outro lugar, pelo menos por enquanto, com um preço acessível pra se morar além da Terra, podemos concluir simplesmente que viver é mesmo uma grande merda. O suicídio passa a ser cogitado, mas você nasceu cristão, acredita em vida após a morte - porque todo cristão é meio espírita, meio macumbeiro (que aliás é outra coisa da qual eu quero falar mas vai ficar pra outro dia) e não pede seu banquinho pra sair de mansinho.
Então você acredita, e espera. Acredita numa melhora na sua (blé) vida, e espera por ela. Aí entram os MM's. Coloridos, saborosos, mas absolutamente dispensáveis, eles surgem pra te dar aquela força quando tudo preteja. E é graças a eles que você continua, arruma forças pra abrir os olhos todas as manhãs, lavar as orelhas, arrancar os pelos do nariz, tirar ramela dos olhos, escolher uma roupa e sair pra lutar.
Eu tenho vivido à base de MM's, das pequenas coisas boas que acontecem, das conquistazinhas xinfrins que supervalorizo pra poder continuar com meu sorriso insolente por aí. É mesmo uma sacanagem que seja assim, mas é assim que é. Então vamo, agradecendo pelos MM's que, pelo chocolate e amendoim, dão até que uma energiazinha maomeno.
Por exemplo, hoje é sexta feira. Até que gosto bem desse amendoim.
(não precisa mais. me contaram que é a Julia Graciela quem canta a bicha, cacei e achei rapidinho. perdi dez reais. ganhei dez reais)
Todo dia, enquanto atendo milhões de telefonemas ao mesmo tempo, emito, recebo e protocolo notas fiscais, apanho do Excel, sirvo cafés e sorrisos pros clientes pentelhos de cada job (pronuncia-se d'jooób), eu me lembro dessa pérola das Irmãs Freitas:
"Precisa-se de moça, boa aparência, pra secretária/ Tem que ser muito bonita, descontraida e educada.
Eu era ainda menina quando li aquele anúncio, no jornal/ Usei o meu melhor vestido e nos sonhos coloridos, precisava trabalhar"
Cacei na internet com todas as minhas forças, mas descobri que todas elas juntas não esquentam uma xícara de café. Então, conto com as forças alheias. Ó, quem poderá me ajudar a conseguir essa música ma-ra-vi-lho-sa?
Os meninos escreveram a respeito do absurdo que aconteceu com eles na imigração inglesa. Sem ter o que dizer sobre semelhante putaria, colo os links do TEATRO DA CURVA, do querido BATATA e do MARCELO RUBENS PAIVA.